Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho. (Regina Brett)
Estava tendo um dia desses um papo bacana com o Vinicios Bergamaschi sobre Allan Kardec. E no meio da conversa, surgiram algumas dúvidas, entre elas se o Espiritismo seria ou não religião. Eu me lembrava de ter lido alguma passagem do Kardec onde ele declarava que na sua proposta o Espiritismo não era religião.
Fomos buscar na fonte, aliás como a gente deve sempre fazer. A melhor pessoa para clarear dúvidas sobre idéias é o dono delas, sem intermediários. Não, não tenho um canal mediúnico com Kardec! Os registros escritos estão aí para isso.
No livro O Que é o Espiritismo (2003/1864, p. 12), Kardec escreve "O Espiritismo é ao mesmo tempo uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, ele compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações".
"O Espiritismo sendo independente de toda forma de culto, não prescreve nenhum deles, e não se ocupa de dogmas particulares, não é uma religião especial, porque não tem nem seus sacerdotes e nem seus templos" (id. Ibid, p.190).
"Eis porque sem ser, em si mesmo, uma religião, ele (o Espiritismo) leva essencialmente às idéias religiosas, as desenvolve naqueles que não as têm e as fortifica naqueles em que elas são hesitantes" (id. Ibid, p.107)
"No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos ufanamos disso, porque ele é a Doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as leis da Natureza. Por que então declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Por isso: só temos uma palavra para exprimir duas idéias diferentes e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da idéia de culto; revela exclusivamente uma idéia de forma e o Espiritismo não é isso". (Discurso de 1/11/1868, Revista Espírita, Vol.11, apud: Rizzini, 1987, p.95)
Quando Kardec menciona "leis da Natureza", recordo-me de Espinosa, para o qual Deus e Natureza eram nomes para a mesma coisa e a nossa vida regida pelo que Espinosa chamava "leis do universo". É válido, neste contexto, ler um trecho de Desidério Murcho sobre esse pensamento de Espinosa: "A concepção que Espinosa nos oferece de Deus é demasiado abstracta para responder às ansiedades dos crentes, que querem precisamente o colorido dos milagres, a maravilha das tarde tranquilas do paraíso a coser meia, e um deus-pai que olha por nós e garante que os mauzões são castigados e os bonzinhos têm direito à sobremesa — e tudo isto sem exigir de nós o esforço de pensar. Esta teologia barata está nos antípodas do conceito de Deus de Espinosa, que era apenas a manifestação da estrita necessidade das leis do universo."
Kardec e Espinosa foram grandes homens! É interessante lembrar também que um plano paralelo ao nosso, do qual o plano material seria uma cópia imprecisa foi mencionado nos primórdios da filosofia por Platão, o qual ele chamou de plano das idéias. Espinosa também citou essa dualidade como atributos de Deus, denominados por ele pensamento e matéria, embora esse filósofo não acreditasse na vida após a morte. Outros filósofos também se ocuparam deste tema, cada um com seu modo particular de pensar influenciado pelo contexto de sua época. Espinosa, por exemplo, era racionalista, extremamente influenciado pelo pensamento cartesiano, visto que era contemporâneo de Descartes, então já um ícone do pensamento filosófico.
Para mim, não é de se espantar encontrar a diretriz filosófica de Kardec na definição de sua obra, afastando a idéia de culto e dogmas. Kardec era um sábio e a história nos mostra que toda vez que os homens tomaram frente na condução do legado de grandes ensinamentos morais como os de Jesus, Buda e outros, criaram-se ritos, normas, dogmas. Criaram-se templos, hierarquias, vestimentas e pretensas interpretações dos 'senhores da verdade', os intermediários. Claro que isso não é regra, existem grandes pessoas ajudando a difundir tais idéias mantendo sua essência e a liberdade individual de absorção e conclusão. Estes sim são os verdadeiros evangelizadores.
Quem sabe Jesus, na sua genialidade, não falava por parábolas para que cada um achasse a sua interpretação destes ensinamentos? Aquela que mais se adeque à sua necessidade? E, dessa forma, seu objetivo seria o encontro de cada ser com o seu Deus e não com o Deus dos outros?
Sendo a existência de Algo que nos transcende e sua relação com o homem, bem como a conduta ética nas relações humanas, temas fundamentais da filosofia, arrisco-me a dizer que precisamos menos de religião e mais da última!
Caleo´s quote of the day (não é do caput do blog):
O cristianismo acabou com o sofrimento transformando o sofrimento em prazer, como o atesta a alegre legião dos mártires e essa gente que, a cada golpe, exclama: Seja o que Deus quiser! (Mário Quintana)
Minha meta profissional é trabalhar com o Dilbert...
Nota: qualquer semelhança com fatos da sua empresa é mera coincidência.



Caleo´s quote of this day:
Faça as pazes com seu passado, assim não ele não atrapalha o presente. (Regina Brett)

7 exposições com intervalo @1EV, Canon SX10, 07/09/2009, Escarpas do Lago, Capitólio-MG
Para Espinosa (Baruch de Spinoza, 1632-1677), Deus ou Natureza eram dois nomes para a mesma realidade (Deus sive Natura), um ser de infinitos atributos, entre os quais a matéria e o pensamento eram apenas dois destes atributos conhecidos por nós.
Nesta visão, Deus não é um ser a parte do mundo, que o governa determinando o destino dos homens. Vem daí a sua fala que Deus não manipula fantoches. O Deus de Espinosa é um deus que se expressa nos Muitos a que se faz a partir de Si mesmo.
Essa foto me fez lembrar de Espinosa. Da presença holística de Deus representada aqui na natureza, na imensidão, na capacidade humana de modificá-la, de se servir dela, nas demais capacidades humanas, como produzir lentes, máquinas, de registrar imagens, de percebê-las e de se gratificar com elas. Enfim, as manifestações da matéria e do pensamento.
O forte texto a seguir é o da excomunhão de Espinosa, quando os rabinos da comunidade judia de Amsterdã se reuniram em assembléia, em 27 de julho de 1656. Dizem que enquanto o texto era lido, uma a uma, as luzes do local eram apagadas para simbolizar "Deus" se afastando de Espinosa...
"Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch de Espinosa, estando de acordo toda a sagrada comunidade, reunida diante dos livros sagrados.
Que ele seja execrado durante o dia e execrado à noite; seja execrado ao deitar-se e execrado ao levantar-se; execrado ao sair e execrado ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou aceite; que a ira e o desfavor do Senhor, de agora em diante, recaiam sobre esse homem, carreguem-no com todas as maldições escritas no Livro do Senhor e apaguem seu nome de sob o firmamento.
Por meio deste documento ficai, portanto, avisados de que ninguém poderá manter conversação com ele pela palavra oral, ter comunicação com ele por escrito; de que ninguém poderá prestar-lhe nenhum serviço, habitar sob o mesmo teto que ele, aproximar-se dele a uma distância de menos de quatro cúbitos e de que ninguém possa ler qualquer papel ditado por ele ou escrito por sua mão."
Humilhado, Espinosa foi abandonado pela própria família e passou a ter uma vida humilde. Para sobreviver, aprendeu a fabricar e polir lentes, inclusive para seu amigo, o grande cientista holandês Christiaan Huygens. Sejam por suas idéias ou pelas lentes de seu ofício, Espinosa trabalhou para que os homens tivessem uma visão mais clara e menos distorcida do mundo.
Espinosa é hoje reconhecido como um dos maiores filósofos racionalistas que já existiu. Ainda bem que esse Senhor do texto de excomunhão, que execra e amaldiçoa, não é o Deus de Espinosa, porque se o Deus de Espinosa resolvesse execrar a estupidez humana, estaríamos realmente perdidos...
Caleo´s quote of the day:
É bom deixar suas crianças verem que você chora. (Regina Brett)
Que coisa bacana está se tornando o Twitter. Começou meio assim sem as pessoas saberem o que fazer com ele, talvez até mal compreendido. E o twitter.com também tem culpa, afinal a página inicial dizia que era uma ferramenta para você escrever "o que estava fazendo..." Aí já viu né, o que não faltava era gente escrevendo "comendo chocolate...", "acordando...", "trabalhando..." etc. Mas se era pra escrever o que estava fazendo e não o que fez há pouco, todo mundo devia escrever "tô tuitano...".
Mas, a capacidade humana não tem limites... Como a estupidez também! (Ref. Einstein) Então o pessoal foi dando utilidade (ou inutilidade criativa) pra coisa. É gente tuitando notícia, é professor tuitando data de prova para alunos, é gente tuitando vendas, é gente tuitando pensamento, música, vídeo, é gente tuitando gente!
Até hoje não vi na Internet um meio de divulgação tão imediato. É muito melhor que e-mail para divulgar uma notícia, um site interessante, uma bobagem, seja o que for. Você está no navegador e de repente sobe um twitter no TwitterFox noticiando algo! Bem, claro que como disse o Luiz Caversan, ao ler os tweets das pessoas que você segue "parece que você está tentando acompanhar um romance lisérgico feito de gotas de uma realidade aumentada, às vezes muito interessante, no átimo seguinte absolutamente fútil".
Diante do bombardeio de tweets, você adquire capacidade seletiva e de interpretação gramatical do verbo tuitar. De acordo com a sua avaliação de futilidade ou interesse, tuitar pode ser intransitivo (você não precisa saber o quê...) ou transitivo direto (você deseja saber o quê!!).
Ah... mas é bom, mesmo para escrever e ler futilidades. Escrever abobrinhas também deve refinar a alma (ref. Quintana).
Então, RTOB (Re-Tweet On Blog) @christianviana: eu tuíto mermo!!! e RTOB ele mesmo: Não me segue que não sou novela! Segue o @rubarrichello que você passa ele rapidinho.
Vamo tuitá gente!! Antes que essa bobagem acabe.
Eu no twitter: @caleoleo (quando fiz o login, gaguejei na digitação)
Nota gramatical:
Imperativo Afirmativo do verbo tuitar:
tuita tu
tuite ele
tuitemos nós
tuitai vós
tuitem eles
Caleo´s quote of the day:
É bom ficar bravo com Deus. Ele pode suportar isso. (Regina Brett)

10 exposições com intervalo @1 EV, Canon SX10, 16/08/09, Serra do Cipó.
Fotografia é uma palavra grega, que significa escrever ou desenhar com a luz. Fotografia é reconhecidamente arte. E por que não poderia ser poética? Uma foto é a escrita de um verso, tinturado pela luz.
Mário Quintana disse sobre versos:
"Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus, não tem importância. É preferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício da arte poética representaria, no caso, como que um esforço de auto-superação. É fato consabido que esse refinamento do estilo acaba trazendo necessariamente o refinamento da alma.
Sim, todos devem fazer versos. Contanto que não venham mostrar-me."
Não poderia faltar o humor característico de Quintana no final. Dizem que certa vez uma senhora o encontrou em uma livraria e, talvez no afã de dizer qualquer coisa ao famoso poeta, saiu com essa: -Quintana, o que devo ler para compreender Shakespeare? E Quintana prontamente respondeu: -Shakespeare!
Mas voltando ao conselho de Mário Quintana sobre versos, é por aquela razão que às vezes me atrevo a escrever alguns, grafados por palavras ou luz. Que sejam maus versos, perdoem-me em mostrá-los, mas me refinam a alma. E você não é Quintana!
Porém os versos que desejo aqui para revelar minha foto, esta aí de cima de arte poética, são mesmo os tradicionais, de grafia letrada, os do mestre poeta Quintana:
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons… acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…
Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto… iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!
Caleo´s quote of this day:
"Alucinação é uma imaginação involuntária, imaginação é uma alucinação voluntária." (Marcelo Kohl)